Um coração bom

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Domingo, 21h14, faz uns nove graus e estou voltando de trem para casa, desembarco na próxima estação onde ainda terei que fazer uma transferência para outra linha de trem, que aí sim me levará até em casa.

No vagão que eu estou duas moças me chamam atenção, ambas tem mochilas de carrinho, no entanto uma delas parece estar alcoolizada e sua mala é um pouco grande demais pra sua estatura e porte físico, certamente sem o teor alcoólico que ela apresenta ela conseguiria carregar a sua mala com menos dificuldade, mas não é o caso.

Desci na minha estação, por acaso, ambas as moças também desceram e se encaminhavam a mesma transferência que eu iria fazer, claro que a que que estava bêbada teve maiores dificuldades e em poucos passos eu já havia a deixado para trás. A outra moça, entretanto, já havia me dado alguns olhares dentro do trem e andava a minha frente devagar, quando eu estava me aproximando ela olhou para trás em minha direção, resolvi então puxar assunto.

– Oi – eu disse a ela.

– Oi?! – ela respondeu, um pouco confusa. Então eu continuei.

– Não nos conhecemos, eu sei, e parece estranho um desconhecido puxando conversa assim, mas vejo que estamos indo na mesma direção e você parece uma pessoa legal com a qual eu conversaria durante este trajeto sem nem sequer pensar em me esconder atrás da tela do meu celular.

É importante ressaltar que meu celular estava descarregado, então eu nem poderia me esconder atrás dele se quisesse, e talvez fosse inclusive apenas por isso que eu estava puxando aquela conversa, mas realmente existem pessoas com as quais a conversa flui de maneira tão reconfortante que não precisamos fugir para a nossa zona de conforto que é quase sempre a tela de nossos smartphones, eu tinha a intenção de que ela se sentisse elogiada com aquela frase.

– Muito obrigada, eu acho – ela disse ainda sem reação.

Foi então que para continuar o assunto e não perder a sua atenção eu continuei;

– Olhe aquela moça atrás de nós, ela não me parece, por exemplo, uma pessoa com a qual eu cogitaria conversar sem tentar em algum momento me esconder atrás da tela do meu celular. Mas ela parece precisar de ajuda. Alguém de bom coração que, sem interesses, a ajudasse a carregar sua mala e até a acompanhar ela até a plataforma de espera do trem. Essa pessoa, talvez fosse firme em dize-la algumas palavras fortes, como por exemplo “Acorde, mulher! Numa situação dessas está muito se expondo muito a pessoas de mau coração que possam querer aproveitar-se da sua fragilidade. Não quero dar-lhe sermão, sei que está cansada e posso ver que bebeu um pouco, mas esteja atenta. Se mantenha alerta e ao chegar ao seu destino, que nem sequer eu preciso saber qual é, você poderá descansar, mas até lá respire fundo e não se apresente da forma que está agora”, E mesmo após dizer tudo isso, ele sorriria com compaixão, sem nenhum julgamento e ela, caso fosse capaz de entender a mensagem sem se deixar influenciar por ego ou orgulho, agradeceria e sorriria de volta, e ao chegar a plataforma eles talvez fossem para destinos diferentes, e melhor que fossem, assim ela teria um tempo sozinha para se reerguer e por em prática aquilo que a pouco a havia sido aconselhada, enquanto ele teria se livrado de seu ato de boa ação antes de ter tempo de se pegar pensando “por que me ofereci a ajuda-la?”, e assim, ela teria a ajuda que precisa e ele teria sido o herói de alguém por uma noite.

Nesse momento percebo que estou falando demais, julgando demais, isso é um grande defeito que tenho. Olho novamente para ela um pouco envergonhado e me surpreendo um pouco ao notar que ela não parecia me julgar um louco, e ainda me diz:

– E por que você não foi ajuda-la? Me parece ter um bom coração. – Ela sorri pra mim.

Não me deixo de maneira alguma afetar pelo seu elogio e respondo de pronto:

– Não, eu não tenho. De maneira nenhuma eu tenho. Veja bem, hoje está uma noite gelada, e eu amo esse clima, e posso ver que você também deve gostar já que sua touca combina com seu cachecol e ambos com suas botas, claramente você não se viu perplexa pela manhã ao se deparar com estas temperaturas e se cobriu com o máximo de roupas que conseguiu, suas roupas dizem que você esperava ansiosa que o frio chegasse para que as usasse, e você está ótima nelas inclusive – Nesse momento eu sorrio para ela – mas veja bem, como eu ia dizendo, amo o frio mas sempre que ele vem e estou assim como agora reconfortado com sua presença apesar de mal poder me mexer em roupas tão grossas, eu penso nos moradores de rua que infelizmente não tem roupas adequadas pra que esse frio seja reconfortante como está sendo pra mim, e aí então esse mesmo frio que eu amo me parece de repente muito cruel. E é, por isso, que eu não sou uma pessoa de bom coração, pois, pensar nisso em nada diminui o meu amor pelo frio e nem sequer vai me servir de motivação para que eu organize mutirões de ajuda ou doe mantas e cobertores. A minha consciência me basta, o fato de que eu pensei neles me basta para que eu justifique a mim mesmo que não estou errado em amar esse frio, mas você consegue perceber que existe aqui uma diferença imensa entre ter pensamentos bons e ser alguém bom? Um coração bom de nada adianta se você não tem coragem de exercer essa bondade. De outro modo, a bondade que nele existe é apenas para fomentar a vaidade do seu ser de querer agir e ser melhor, sem ser.

– Você me fez eu me sentir um pouco mal agora, mas se pensa assim, por que então não doa casacos? Por que não ajuda aquela moça da forma como descreve? Por que se contenta em ser apenas um coração bom e não uma boa pessoa?

(…)

Felizmente, pra mim, eu não precisei responder tal pergunta, afinal, esse dialogo todo só aconteceu na minha cabeça, pra ser mais sincero, ele vive acontecendo. Em cenários diferentes, em situações diferentes, mas sempre acontece. Eu ainda não tenho uma resposta, mas e você? Tem alguma boa desculpa para não estar sendo uma boa pessoa?

 

“Se esse é o seu caminho siga em paz, siga seu coração.
Entre o Fel e o espinho
o amor de Deus cai sobre o homem bom(ba)”

(…)

Medulla – Perigo  

 

 

 

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