A distancia entre a despedida e o reencontro

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Faz muito tempo que não te vejo, faz muito tempo que sinto falta.

A despedida foi dolorosa. Eu era um menino, que acreditava que precisava se tornar um homem, por que você nunca deu sorte com nas suas escolhas, então queria te mostrar que ao menos fez um bom trabalho na sua criação.

Eu sei que falhei.

Nesse tempo afastados, sei que estive ausente, sei que me preocupei demais comigo e que parece que eu te esqueci. Eu me cobro muito por isso mas eu não tenho desculpas, a verdade é que eu evitei por muitas vezes lembrar. Por que a lembrança me trazia a dor de te fazer esperar tanto tempo, a dor da distancia que não permite que eu te alcance com o meu abraço, a dor de chegar em casa e não te encontrar lá.

Eu sinto falta do cheiro da sua comida, das minhas roupas limpas no guarda roupa arrumado como se fosse mágica, mas nada disso me importa quando eu reparo na falta que eu sinto de ter você comigo, por que desde a nossa despedida todos os dias sinto falta de poder olhando nos seus olhos verdes dizer: eu te amo.

E essa frase tão curta nunca representou um desabafo tão imenso.

Na nossa despedida, eu era um menino que te disse que era minha hora de carregar todo o peso que você tinha carregado por nós.

Eu menti. Eu estava fugindo desse peso.

Por muito tempo eu tentei viver uma vida “normal”. Tentei apagar meu passado e recomeçar, eu fiz isso mais por mim que por nós. É impossível apagar minhas cicatrizes, é impossível ser “normal” depois de tudo que vivemos, e seria impossível chegar aonde eu preciso se eu nunca tivesse entendido tudo isso.

Eu sofri, mas dessa vez minhas feridas não te sujaram e talvez tenha sido só nesse momento que eu tenha vivido por nós como eu te prometi.

A verdade é que eu ainda tô perdido, já não tenho mais a inocência daquele menino que acreditava sinceramente que poderia facilmente carregar todo o peso por nós dois, sendo sincero as vezes eu duvido das minhas forças pra carregar o peso da minha própria vida.

Eu vou te ver de novo, depois de nem sei mais quantos anos, no lugar em que deixei na nossa primeira despedida e eu não sei se eu tô pronto. Não sei como vou reagir, se eu vou sorrir de felicidade em te ver, ou se eu só vou chorar, por que quando eu penso nisso eu preciso fazer um esforço imenso pra não parecer uma criança que chora como se nunca mais fosse conseguir parar.

Eu ainda me culpo por não ter alcançado as metas que eu tracei pros 5 anos seguintes a nossa despedida, me culpo ainda mais por que já faz muito mais tempo que eu te deixei. Eu tenho vergonha de me imaginar chegando até você sem a salvação dessa vida que eu te prometi. Eu tenho medo de reconhecer no teu olhar a decepção que eu enxergo no meu quando me vejo no espelho.

Sem você eu passei tanto tempo sem ser feliz que eu já quase nem lembrava da sensação, eu já quase nem acreditava que seria feliz de novo um dia. Eu senti falta dos nossos dias, até daqueles em que vivemos um inferno na terra, por que mesmo nesses eu nunca tinha me sentido sozinho como eu me senti por tanto tempo após a nossa despedida.

Hoje, me permito não ser mais tão infeliz, e nem mesmo nisso eu tenho méritos.

Eu sem fazer nada pra merecer isso tive a sorte de encontrar alguém que cuida de mim, cuida da forma que pode, da forma que eu, fechado e machucado que sou, permito, mas que cuida e isso tem me salvado de mim mesmo.

Nesse nosso reencontro, vou lhe apresentar ela, e diferente do que você possa pensar, ela não é uma rival mas sim sua maior aliada. Eu não a mereço tanto quanto não mereço a você e espero que um dia eu seja um orgulho pras duas.

A contagem regressiva faz meu coração se encher de ansiedade, o pensamento de que toda a alegria do reencontro vai me fazer em algum momento passar pela dor de uma nova despedida me sufoca, todas as culpas, todo o peso que tenho sobre os ombros só não me impedem de criar alguma desculpa pra não ir por que eu tenho certeza de que tudo isso vai acabar quando meu abraço finalmente encontrar o teu.

Por que abraço de mãe cura as feridas do filho, abraço de mãe acalenta a alma do filho, abraço de mãe aquieta o coração do filho e é isso que eu estou indo buscar.

Eu ainda não estou levando nas malas as soluções nem a tranquilidade que eu queria tanto poder te dar, estou indo te abraçar e desabar todo choro que eu tenho guardado, desabafar e te pedir conselhos, dizer olhando nos teus olhos verdes o quanto eu te amo, pedir desculpa pela demora e te prometer mais um vez que eu vou cuidar de você. Que eu nunca mais vou fugir da responsabilidade de ser filho de uma mulher guerreira que já passou fome, que já perdeu os pais, que esta criando o segundo filho sozinha e que mesmo assim eu nunca vi reclamar da vida. Vou pra te prometer que eu vou vencer por nós, por nós dois, por nós dois e pela minha irmã, por nós dois e pela mulher que vou te apresentar como minha futura esposa. Que eu estou pronto pra finalmente deixar de ser um menino.

E dessa vez eu juro que vou cumprir essa promessa, mãe.

 

Nossas mãos ainda encaixam certo
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóis

 

A sós nesse mundo incerto
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóis

Emicida – Mãe

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