Sobre a Tristeza

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Olá escuridão, minha velha amiga.

Estou precisando conversar, e você, sempre me ouviu. Não me lembro quando se tornou uma amiga, mas é certamente o relacionamento não familiar mais longínquo que possuo.

Talvez a ciência te explique, ou te justifique, por eu ter sido filho de uma mãe solteira, que trabalhava de domingo a domingo, por mim, e que mesmo quando chovia muito estava na rua empurrando seu pesado carrinho, tocando campainhas e oferecendo os produtos que precisava vender, por mim, que chegava tarde e cansada e que dormia bem cedo pra no outro dia também cedo tornar a empurrar seu carrinho e de casa em casa tocar mais campainhas, por mim.

Talvez a ciência diga também que vem daí essa paranoia de estar incomodando que eu tenho. Eu já era um fardo muito grande, vivi para não causar problemas a ela, e nem a ninguém.

Vai ver você tenha entrado na minha vida quando vi essa mesma mulher, que se sacrificava todos os dias, por mim, sendo diversas vezes agredida dentro da sua própria casa pelo homem que ela amava, enquanto eu não era capaz de fazer nada alem de fingir que estava tudo bem. Pois bem, nisso eu realmente fiquei bom.

Talvez a ciência também use isso pra explicar alguma outra falha psicológica que eu tenha.

Existem alguns outros fatos traumáticos onde você pode ter entrado na minha vida, mas eu realmente acredito que você já está comigo desde o inicio. E no começo eu não te entendia e confesso que ainda hoje não entendo, porem, hoje eu abro a porta pra que você não precise arromba-la e eu aprecio a sua companhia porque entendo que eu não sou capaz de evita-la. Eu me permito estar triste.

E não sou triste do tipo que choro desesperadamente, sou triste do tipo que gostaria de chorar desesperadamente. Apenas queria por pra fora, me trancar por algumas, ou várias horas, no meu quarto e descarregar tudo isso que sinto. Eu só não consigo.

A pior sensação é essa, é o choro preso na garganta, que dificulta minha respiração e me deixa com o peito pesado. São essas lágrimas que molham meus olhos mas se recusam a sair copiosamente. E se você está aqui dentro de mim e não sai, eu não consigo deixar de sentir, acho que foi assim que acabamos tão amigos, eu me acostumei com a sua presença.

E eu queria explicar pras pessoas que as vezes eu tô  triste. Que eu sinto muito por isso. Que não sou confiante como faço parecer, e que eu não me sinto bem vindo em quase lugar nenhum. Que eu tenho a minha bagagem e que ela as vezes está bem pesada, por mais que eu sorria e faça parecer que não.

E eu sou o estranho, eu sei. É normal ser feliz, todos são. Todos se unem a suas famílias e celebram o nascimento do menino Jesus. Ceiam e festejam a comunhão da família. Se abraçam, se perdoam, se amam e são felizes. E eu acho isso tão lindo, mas eu não me sinto parte disso, e aqui estamos novamente, eu e você minha amiga.

Como é que se explica pras pessoas que não vivem no mundo que existe dentro da gente o que passamos e o que sentimos? Como se explica o som do silencio?

“Hello darkness, my old friend
I’ve come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains within the sound of silence”

The sound of Silence – Simon & Garfunkel

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16 comentários em “Sobre a Tristeza

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  1. Esse é um dos poucos textos que eu li com um nó enorme na garganta. Me fez refletir mais profundamente a minha vida, a tentar enxergar o lado bom das coisas, mesmo que pareça não haver. Sempre tem.
    Há muito mais pelo que ser grato e a gente tende a deixar isso de lado. Enaltecemos os nossos medos, e esquecemos que a melhor forma de seguir em frente é levar a alegria, ela colore os dias e fica mais fácil de se levar.
    Um dia de cada vez, é esse meu lema.

    Um grande beijo!

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    1. Incrível descrição Aline Felix. Eu meio que só pus pra fora o que estava sentindo, mas ainda pretendo enaltecer isso que você sabiamente descreveu, como temos muito mais a que sermos gratos e como devemos levar alegria sempre na vida. Um grande beijo de luz! E muito obrigado pelo feedback, fico imensamente feliz quando os sentimentos que me transbordam atingem os sentimentos de outras pessoas.

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  2. Eu nunca li um texto que me identificasse tanto como me identifiquei agora, o sentimento de ser culpada, a vontade absurda de chorar e não sair nada a ânsia de chegar em casa para derramar lágrimas incontroláveis e sentir-se decepcionada quando na verdade elas não podem rolar pelo seu rosto, elas estão presas e nem mesmo você consegue liberta-las… Nossa quanto sentimento! Confesso que meus olhos encheram-se de lágrimas a cada rolar das linhas de seu texto.
    Fique bem. 🙂

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    1. Waw. É muito gratificante alcançar outros corações com os meus sentimentos, e eu peço perdão por ainda não ter o feito, mas quero escrever sobre o quanto ser triste é comum. Sobre como não podemos deixar essa tristeza nos devorar.

      “É saber se sentir infinito
      Num universo tão vasto e bonito
      É saber sonhar
      E, então, fazer valer a pena cada verso
      Daquele poema sobre acreditar (…)”

      Fica bem!! ❤

      Curtido por 1 pessoa

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